Um Natal e um 2017 apipados de MUNGANGA!

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Eita bixiga taboca que chegou mais um final de ano, né? E agora? Agora que tem gente que aproveita as festas pra ficar mais enfeitada que cruz em beira de estrada. Mas garanto que mesmo ficando lorde há quem sinta saudade da época em que andava com um prego na alpercata, quando a única preocupação era não encontrar um azougue pelo meio da estrada que levava pra caixa bozó, bem ali, perto da baixa da égua.

Oh povo caviloso é o nordestino! Gosta de uma fuleragem, viu!

Eu tinha uma cadela da raça doberman que se chamava Chitara. Num natal desses aí, na casa de mainha, minha ex-cunhada e amiga, Tatiana, assim que chegou à festa foi logo aloprando. Quando viu o peru grande que só a mulesta, botou pra torar:
– “Oxe, e mataram Chitara, foi?”

Porque nas águas de mainha é assim! Quando a gente vai fazer feira, lá vem ela com um fardo de um produto novo no mercado.

– “O que mulesta é isso, mainha?”

– “Sei lá! Só sei que tá numa promoção boa que só a gota e tou levando pra provar.”

– “Oh mulher, mas você é cavilosa! E se o povo não gostar ou der entojo?”

– “De entojada só tem você mesmo na família! E com aquela mundiça lá de casa eu duvido que sobre alguma coisa”.

Armaria! Oh mulher bruta!

Enfim, chegamos a mais um Natal e, consequentemente, a um final de ano.
E por falar nisso, fico me perguntando: por qual motivo, em 47 anos de festas de rompimento de ano, a única que me veio agora foi uma que passamos na praia de Intermares? Primeiro, enchemos o bucho num jantar bom que só a mulesta na casa dos meus tios Nélia e Otacílio e, depois, seguimos pra ver a queima de fogos na beira da praia. Quando eu digo seguimos é porque quero dizer que era gente com força. Mainha, meus irmãos, cunhados, eu e trocentas crianças de todas as idades, tamanhos e cores. Tudo traquino!

A minha tia chamou meu tio pra ir também e ele disse que preferia ficar em casa. Mesmo assim, ela foi com a gente:
– “Eu vou. Já jantei com ele, né?” (Ela na tentativa de se convencer)
Lá fomos nós!

Assim que chegamos, aquela ruma de meninos e meninas, tudo avexado, desembestou logo pra areia. Alguns acharam dinheiro e voltaram mais avoroçado ainda pra se amostrar com a novidade. Até hoje fico me perguntando se tinha alguma botija enterrada ali, naquela praia e as crianças “tranqüilas”, escavacaram.
Carlos Drummond de Andrade dizia que “no meio do caminho tinha uma pedra”. Só que, na minha família, tinha era um moi de cansação mesmo (não me pergunte como foi nascer em plena areia da praia), e tome queimar as pernas dos pobes que ficaram tudo afobado.

Pra quem não sabe o que é cansanção, é uma planta que queima que só a goitana e que, às vezes, a pessoa usa pra limpar o fiofó achando que é folha de mufumbo, quando vai fazer o serviço no mato. Eitcha! Que agora bateu uma nostalgia: duas bandas de tijolo, ou de pau, ou de pedra ou do que encontrasse pela frente. A matéria-prima não interessava. O que importava era elevar os possuídos da terra e conseguir aliviar a pressão.

Apoi, quando percebia e sentia que era cansanção, saía dando pinote de toda altura. Imagine isso debaixo de um sol de 40 graus, meidiinha? Chega dá uma gastura só de pensar!

É muita gente atuleimada nessa vida!

……….

Voltando pra minha tia…pois bem, faltando poucos minutos pra meia-noite, ela começou a se aperriar e chorar.

– “Oxe, tia, o que foi?
– “Em 40 anos de casamento nunca passei um réveillon longe do seu tio”.
– “Oh mulher, quer que eu te leve pra casa?”
– “Mas você vai perder sua festa.”
– “Tem nada não. Bora mulé! Avie!”
E lá fomos nós! No meio do caminho, só escutava o pipoco dos foguetões e percebia uma claridade que chega encandiava. Mas não tinha nada que importasse mais do que a belezura da cena que vi quando ela chegou em casa e encontrou o seu grande amor:
– “Oh meu vei, não consegui ficar longe de você! Feliz ano novo!”

….

Que o Natal, o reveillon e todo o ano de 2017, sejam arrudiados de muita muvuca, de abraços arrochados, cheiros no cangote, conversas no pé da urea e, principalmente, percebendo o verdadeiro significado destas datas tão festejadas: nascimento e renascimento.
Vamos tentar fazer isso de alma leve, sem amarras, com muita risadagem, aresia de pote e munganga com força!

* Este texto teve a colaboração do munganguento Hermano Araruna, um carrazeirense que, assim como eu, adora usar estes termos
** Este tabuleiro de retrato foi minha amiga, Renata Brito, que fez.

31 thoughts on “Um Natal e um 2017 apipados de MUNGANGA!

  1. Que em 2017, possamos encontrar um véi e, que daqui a 40 anos possamos dizer: “não consigo ficar longe de você, feliz ano novo!” =)

    Parabéns pelo texto! Que o novo ano seja de muita inspiração, conquistas e amores para a vida inteira.

  2. “Vamos tentar fazer isso de alma leve, sem amarras, com muita risadagem, aresia de pote e munganga com força!” melhores pedidos para 2017. Feliz Natal !!!

  3. Quantas mungangas carregamos nos momentos de decisão e escolhas? Basta um olhar atento para transfigurar o que é real em munganga. Lindo o texto. Que as mungangas de 2017 floresçam cada vez mais esse olhar.

  4. Ri bastante e realmente entendi porque o paraibano é munganguento já de nascença, porque até pelo choro o caba já sabe que é da Paraíba. Fazia tempo que tinha escutado, através de palavras, este repertório q se parece mais um código morse hhhhhh. Que nas cagadas da vida, não encontremos somente urtiga p se limpar kkkkkkkk. Vou contar um segredo, viu! Uma vez fui fazer uma matéria em Souza e no mei do caminho depois de ter estufado o bucho com uma rabada acompanhada de arroz da terra, me deu vontade de dar um cagão daqueles. O meu colega de trabalho, Madson, parou o carro no acero da pista e desci nas carreira e, por trás de uma pedra de seixo gigante, me abaixei e já fiz o serviço. kkkkkkkkk. Agora, isso era olhando p ver se o gaiato do Madson nâo vinha me filmar naquela situação. hhhhhhhh. Terminei e ai? Se limpar com o que se em minha volta só tinha mato seco? Bem, foi a vez que vi uma cueca ter tanto pano, viu! kkkkkkk. Passei dois dias trabalhando no osso kkkkkkkkkkkkk.
    Feliz 2017! Um ano cheio de boas histórias e de coração limpo p todos. Bjos!!!!!

  5. Cascaviei meu celular e fui ler no aparelho lá de casa, pensando na viatura que deu prego trezontonte, o fuxico de Romye Schneider.
    Ô leitura boa da mulesta pro caba se desaperrear nesse exercício cotidiário do trabalho nosso.
    Gosto demais da prosopopéia de Romye e acho cagado e cuspido com a zuada que meu avô fazia na calçada antes de cada goipada.
    É pra rir de ficar ingembrado.
    Beijos, Romye.

  6. Me identifiquei com cada palavra que você colocou nesse texto maravilhoso, até parece que tu é dá minha família kkkkkkkkkkk. Eu li seu texto em voz alta, que era pra Mainha ouvir, aí ela disse: ” Diga a Romie que use os termos torar, barruada, cesto ( mania)… E muitos outros que não da pra citar, se não num paro hoje de digitar. Menina!!! Foi maior muvuca aqui em casa, cada um que lembrasse de um termo diferente, pense!! Romie muito obrigado por mais uma vez invadir meu dia, e dessa vez você entrou na minha casa e fez parte do NOSSO dia. Parabéns!

  7. Ô texto bom da bixiga taboca!!!!
    Mulher, vc arrasa sempre…
    Ri muito lendo esse texto e aproveitei pra dar uma atualizada em termos que eu ainda não conhecia. Que seu Natal seja maravilhosamente munganguento!!!

  8. To aqui em Patos, na casa de Vera, lendo pra todo mundo escutar. É um risadeiro só. Vem logo as lembranças da nossa infância. Perfeito pra refletirmos sobre nossas origens. Muito bom fazer parte disso!!❤❤❤❤❤

  9. Nos tempos de “puxincoi” com minha idolatrada, salve, salve, fui buscá-la na casa dos pais dela para “virar o ano” na “Mansão dos Medeiros”… O opalão azul metálico da minha mãe deu um prego no meio do caminho, o cano de escape despencou, um barulho da mulesta, e eu, na escuridão( pq tem que desligar as luzes da cidade, né), todo de branco feito um sacristão, sem enxergar nada, ouvindo o foguetório, me melando todo e, caprichando na gambiarra. Só sei que foi assim, sem aumentar nem um tiquim. Sucesso, Romye!

  10. Nos aperreios que temos passado ultimamente essas tuas mungangas nos provocam o riso Romye. Muita inspiração, imaginação e lembrança para o ano de 2017! Beijos.

  11. Vixe Maria, que coisa linda!! Você é uma contadora de estória da bixiga, mulher!! Chorei com sua tia. De emoção.
    Ah, adorei a parceria com o doidinho do Hermano Araruna. A parêa sertaneja perfeita nas mungangas!
    E vamos simbora celebrar o nascimento e o renascimento!!!

  12. Que me chamem de matuto
    De brocoió, beradeiro
    Pois eu sou caririzeiro
    Arretado, bicho bruto
    Nem dou bola pra insulto
    Num abro nem para o trem
    Minha comida é xerém
    A bombasta, nem aí
    Não troco meu cariri
    Por Zôropa de ninguém

    Francisco Almeida

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