“…sem perder a ternura, jamais”

Noite de sábado, 26 de agosto, de 2017. Ponto de Cem Reis, João Pessoa. Muita gente pra receber Lula, o ex-presidente do Brasil, que está percorrendo o país na caravana “Lula Pelo Brasil”. Recebeu título de cidadão pessoense, muitas homenagens de crianças, estudantes, índios, poetas populares e uma grande surpresa: Elizabeth Teixeira, trabalhadora rural, ativista brasileira e viúva de João Pedro Teixeira, idealizador da Liga Camponesa, na cidade de Sapé, morto há 52 anos.

E a solenidade seguia como manda o protocolo. Falou uma autoridade, outra e mais outra, até que, chegou o momento mais esperado: o discurso de Lula. E, em meio à empolgação do ex-presidente, lá vinha Elizabeth, no alto de seus 92 anos, se aproximou e disse:

– Oh Lula!

– Oi, Elizabeth!

– Eu já vou, viu!. Vim me despedir!

E Lula parou tudo e foi dar um abraço. Os dois ficaram conversando como se estivessem na calçada de casa, no interior.

O público e as autoridades riram e aplaudiram. Eu vibrei muito e saí dali, empolgada, intrigada e pensando: como pode? Como pode?

Uma mulher, que na juventude, teve que fugir porque os pais não queriam o casamento porque Pedro Teixeira era pobre e negro. Depois, esteve ao lado do marido, na luta em favor do homem do campo e seguiu na peleja, mesmo depois dele ter sido morto. Ela ficou sem marido, sem dinheiro e com 11 filhos. Não se intimidou e continuou na luta pelos direitos do trabalhador rural.

O espírito determinado e combativo de Elizabeth chamou a atenção do mundo. Fidel Castro a convidou e ela foi a Cuba. A história dela e do marido virou até filme famoso (Cabra Marcado Para Morrer); depois de tudo, ainda sofreu as conseqüências da ditadura militar.

Por isso o questionamento: como pode? Como pode ter tanta pureza depois de tudo?

E, como pode ainda está nos movimentos populares aos 92 anos de idade? Houve um momento do evento que Elizabeth Teixeira também se manifestou por melhores condições para o coletivo. Para o coletivo.

– Precisamos de reforma agrária – ela disse.

Acho que agora dá pra entender o sentido real da frase do revolucionário argentino, Che Guevara:

“É preciso endurecer, mas, sem perder a ternura, jamais”

 

 

8 thoughts on ““…sem perder a ternura, jamais”

  1. Lindo momento! Uma guerreira que entra para a história do mundo como símbolo da resistência aos massacres dos poderosos aos trabalhadores. Mesmo aos 92 anos não perdeu sua força e vontade de lutar pelo que acredita ser melhor para o povo do Seu tempo. Tive a honra de receber numa aula da Especialização em Direitos Humanos na UFPB, onde seu o seu recado. ONDE FALOU ESSA MESMA COISA. “É preciso fazer uma reforma agrária para todos”!
    Obrigado pela oportunidade do registro de mais um ato de luta dessa mulher forte além do Seu tempo.

  2. Dia marcante para a Paraíba e para o Brasil. Seu ponto de vista, Romye, além de revelar o fulgor, expôs o enternecimento impactante das grandes almas quando reunidas.
    Olha só:
    [R.S.]”… E, em meio à empolgação do ex-presidente, lá vinha Elizabeth, no alto de seus 92 anos, se aproximou e disse:
    – Oh Lula!
    – Oi, Elizabeth!
    – Eu já vou, viu!. Vim me despedir!
    E Lula parou tudo e foi dar um abraço. Os dois ficaram conversando como se estivessem na calçada de casa, no interior.
    O público e as autoridades riram e aplaudiram. Eu vibrei muito e saí dali, empolgada, intrigada e pensando: como pode? Como pode?”
    Isto, pra mim, já é uma narrativa suficiente para um grande filme. Parabéns, Romye!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *