Professora, posso ir ao banheiro?

O meu primeiro contato com uma professora foi por volta dos quatro anos. Era a minha mãe. A sala de aula era dentro da nossa própria casa, quando morávamos no sítio. Adorava ver aquele povo lendo e escrevendo e queria porque queria fazer o mesmo. Mas, como era muito nova, mainha não deixava e ficava mandando eu ficar quieta pra não atrapalhar a aula.

Não deu certo! Muito pelo contrário! Aperriei tanto, mas, tanto, que até chegava a ficar dando cambalhotas na cama pra chamar a atenção dos alunos, na esperança que ela mudasse de ideia. E mudou!

Eitcha! Mas eu fiquei feliz! Mainha conta que deixou porque observava que eu era tão louca pra aprender a ler que ficava, o tempo todo, tentando ler nos litros de óleo que eram transformados em copo pra tirar a água do pote.

– Me dê esse copo aqui! Oh menina cavilosa!

E eu lá, “lendo no litro”. Ou melhor, crente que tava fazendo isso.

Mas, aqui vou confessar uma coisa: o que eu queria mesmo era fazer parte da turma pra compartilhar de uma ideia fantástica que mainha teve pra organizar as idas dos alunos ao banheiro (oh bixim que gosta de ir a banheiro é estudante. Nunca vi!).

E a ideia era assim: num canto da sala ficava uma pedra, dessas bem redondinhas e lisas. Quem fosse ao banheiro, levava a dita cuja. Se outra pessoa quisesse ir, tinha que esperar a pedra voltar pro lugar. E era esse movimento, o tempo todo e eu ficava ali, viajando naquela estratégia. Mas é claro que, naquela época, eu não fazia a menor ideia do que era estratégia.

Fazia ideia das sensações que me causavam o observar, descobrir, compartilhar, aguçar a curiosidade e criatividade, vibrar e aprender.  40 anos depois, a lembrança destes sentimentos está ainda muito viva e presente. É uma espécie de magia que ficou tatuada na memória.

Magia que começou a partir da atitude de alguém (a professora), que tem a missão incrível de mostrar possibilidades que levam a um novo pensar.

Viva aos professores e professoras!

 

20 thoughts on “Professora, posso ir ao banheiro?

  1. Que história linda, Romie! Realmente é impossível não ficar uma imagem, fato, ou orgulho de ter passado pelas mãos de um grande mestre. Lembro bem como.o adorava minha professora Márcia Kaplan (Ospb), do meu professor de Educação física e a de educação artística! Há! E a de francês Maristela.
    Beijooooo amiga!

  2. Lindo texto, Romye!
    Realmente, o papel de um professor na vida de uma pessoa (aluno/a) é de grande importância.
    O Mestre pode aclarar o caminho, ajudar nos primeiros passos, indicar a direção e, nessa dinâmica, mais e mais aprender!
    Viva os professores e as professoras!

  3. Quando ia passar as férias na casa da minha avó materna, em Carrazeiras (é assim que as pessoas de lá pronunciam), convivi muito com o tchibungo do caneco de alumínio na água do pote, que era a água fervida para as pessoas da casa beberem. Nem precisava de geladeira, pois o contato com o pote deixava a água bem fresquinha. Também fui do tempo da pedra no grupo escolar. Lembranças maravilhosas, que parecem conversa sem sentido para os jovens de hoje.

  4. Incrível, amiga!!!
    Fico encantada ao ler seus textos. Ums descrição dos acontecimentos, que nos faz viajar e embarcar na leitura do seu olhar.
    Isso é que é, saber escrever!!!
    Levar o leitor à identificação com as emoções do escritor.
    Também pudera!!!! Filha de professora é assim mesmo. Criativa, sensível, generosa…
    Essa é a nossa amada munganguenta!!
    E eu, do alto da minha missão de professora, identifico-me profundamente com essa homenagem. Sinto todos os dias em minha sala de aula crianças igualzinhas à protagonista desta história.
    Gratidão, amiga querida!!!❤

    1. Oh minha querida, te admiro demais! E não deixa de ser minha professora, afinal, foi a partir do seu incentivo que o Munganga começou. E ser professora é isso.

  5. Escapar fedendo é melhor do que morrer cheirando. Kkkk

    Mas vamos a pedra: O educador ñ só ensina, mas aguça, desperta, aprende e reconstrói conceitos. Feliz dia do professor!

  6. Há…! Nem fiz o meu post dos professores… Mas lendo Munganga deu uma saudade… Da minha professora Joselita, professor Lauro Aguiar, professor Luís Custódio, professor Lucélio, professor Simão, professor Cássia Lobão, professora Clarice Albuquerque, Mika… Tanta gente boa, dedicada ao ofício de lecionar. Aprendi muito com eles e outros mais. Romye amo suas memórias, simples, reais, contadas de forma lúdica. Beijo

  7. Ótimo texto! Parabéns ao vocacionados mestres! Se o governo valorizasse essa vocação seriamos do primeiro mundo. Quem sabe um dia chegaremos lá? (Ozenaldo).

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