A mulesta do celular

Dizer que o celular dita comportamentos é chover no molhado, mas, falar das consequências disso é sempre atual e, neste caso, engraçado. Como a cena que presenciei num banco enquanto aguardava chamarem minha senha.

Como o meu número era num sei lá quanto e ainda tava em num sei lá o que, o jeito foi passar o tempo prestando atenção na conversa duzôto, falando da vida alheia, de preferência. Quando decidi ser jornalista não foi à toa. Em ponto de ônibus, sala de espera de médico, sempre saio desses lugares com uma boa história que escuto e olhe que são contadas as vezes que não me meto. Nesta, por exemplo, não meti o bedelho. Quer dizer…

Foi aí que escutei o diálogo mais empacado de toda a minha vida, entre duas mulheres. Uma delas de olho grelado no celular.

A que tava sem celular deu uma notícia:

– Menina, você soube que Nevinha teve um enfarto?

A de celular “respondeu”, sem se dar conta da gravidade do assunto:

– E teve?

A outra, crente que a conversa ia ter prosseguimento, repetiu a informação:

– Teve!

E a do celular:

– Um enfarto?

– Sim! Teve um enfarto! – respondeu a outra já se abufelando com aquela conversa que mais parecia ter eco. E como não bastasse toda a angústia da mulher sem celular, a outra, encerrou a conversa, sem tirar os olhos do companheiro de todas as horas:

– Quem teve um enfarto?

Minha gente, a vontade que tive foi de gritar:

– Nevinha, mulesta!

Mas, pra evitar que fosse eu a próxima a enfartar, saí de perto. E que Deus guarde Nevinha num bom lugar!

 

 

8 thoughts on “A mulesta do celular

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