Encantos do cotidiano

 

Conheci uma daquelas pessoas que fazem tudo valer a pena. Estava eu num hospital e, após um exame, corri pra lanchar, antes de ter uma turica de fome, pois o procedimento era daqueles que a gente tem que fazer de bucho seco.

Escolhi uma barraca de tapioca. Mal cheguei e comecei a conversar com uma mulher, que nunca tinha visto antes, como se fôssemos as melhores amigas. Minha cara isso! Começamos pelo papo preferido de ambiente hospitalar.

– Tenho hérnia de disco.

– Oxe, eu também tenho. A sua é lombar ou cervical?

Aproveitei pra dar a receita de um alongamento ‘milagroso’ pra dor na coluna, que um fisioterapeuta me ensinou. Daqui a pouco, todas as clientes e até a dona da barraca tavam anotando.  Oh nação de dor no espinhaço!

Em meio ao ensinamento da postura, ela falou da infância difícil, com o pai alcoólatra e violento, que botou os filhos pra fora de casa pra não ter despesa. Contou também que era muito infeliz no casamento.

– Tenho 28 anos de casada, mas, nunca gostei do meu marido. Casei com ele porque minha mãe obrigou.

Prestei atenção em cada detalhe das queixas dela por perceber a necessidade do desabafo. Mas, reparei mais ainda no semblante daquela criatura com uma história de vida tão cruel. Ela era bem humorada, serena e leve. Será que é possível as dores do corpo não atingirem a alma?

22 thoughts on “Encantos do cotidiano

  1. É certo que as dores da alma imprimem suas marcas pelo corpo mas quem escolhe ser feliz vai conseguir, apesar de tudo.
    Bjo no seu coração Romye.

  2. Talvez por isso a alma pareça mais preservada… O corpo fala. Fala das dores nunca ditas – as malditas – e das dores benditas até em rodas de tapiocas.

  3. Kkkkkkkkkkkk
    Anote aí:
    Enrole uma toalha ou lençol, se deite e bote debaixo do espinhaço, na altura do umbigo. Com as pernas esticadas, afaste os pés e encoste uma dedão no outro e com os braços esticados, acima da cabeça, gire a palma das mãos pra baixo e encoste os dedos mindinhos. Fique nesta posição por cinco minutos. Quando tirar a toalha ou lençol, faça uma “ponte” com o abdômen e conte até 20 ou 30. Desça bem devagarinho, sentindo vértebra por vértebra. Vire-se de lado para levantar. Repita duas vezes por dia.

  4. Muito bom mesmo esse texto. Uma ótima reflexão pra quem lê, a inspiradora mesmo doente e infeliz no casamento não se incomodou de passar um belo relato.

  5. É incrível como ainda hoje ouvimos relatos de “cadeias” sociais!
    Mas também me impressiona a facilidade e a pureza do povo paraibano em rapidamente criar relacionamentos amigáveis e entranháveis.
    Parabéns pela simplicidade, Romyezinha. Você é contagiante!
    Simples e belo relato.

  6. Parabéns minha Linda…….. Gostei muito da conversa pé de barraca hospitalar. Show de bola………. Só você pra me presentear este belo enredo.

  7. Sim, com certeza! O ruim mesmo é quando a dor da alma faz o corpo desmoronar! E hoje em dia tem muito mais gente doente da alma do que do corpo! Falta conversa com a família, com os amigos, os vizinhos… Esses momentos de conversas/desabafos com estranhos é apenas um sintoma da estranha vida que levamos, onde o que mais faz falta é contato cara a cara, conversa ao pé do ouvido, toque físico, CALOR humano!

  8. Belo texto. Romye que vida sofrida dessa senhora que desabafou contigo. Que Deus a abençoe e traga harmonia para o lar dela. Agora Romyer me interessei por sua aula de alongamento só que entendi até a metade da aula depois me atrapalhei todo. Só tem um jeito, preciso ir aí para aprender melhor. kkkkkkkk…..

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